8 de dez de 2008

Muito barulho por nada I

A crise que envolveu a recente eleição da Mesa Diretora da Assembléia Legislativa do Pará tem tido muitas versões: aqui vão os fatos.

 

O título é o mesmo da comédia “Much ado about nothing”, onde o bardo mistura banquetes, príncipes, condes e damas, que se embrenham em calúnias, perfídias, duelos, fugas, dores e amores: Shakespeare.

 

E tudo por algo não tão bem entendido ou explicado: apenas caprichos humanos.

 

Toda a segunda-feira virá um dia, a começar pela sexta, 28.11, passando pelo dia mais grave, segunda, 01.12, e terminando na terça, 02.12.

 

Sexta-feira, 28.11.08 - O anúncio da crise

A combustão - Dave Nitsche. Clique na imagem para seguir o link.

Minha filha passara no concurso do Ministério Público Federal, que a lotou em Altamira. Eu e Ann viajaríamos à tarde para preparar o apartamento que houvéramos alugado para acomodá-la.

 

Pela manhã o meu celular chamou. O nome do Deputado Domingos Juvenil, Presidente do Poder Legislativo do Pará, apareceu no visor. Ele narrou-me um telefonema que acabara de receber da Governadora do Estado.

 

Sua Excelência recusava veementemente a participação do PSDB na 1ª vice-presidência da mesa diretora da Assembléia Legislativa do Pará.

 

“Ela não aceita o PSDB em lugar algum da mesa”, narrava-me o Deputado Juvenil, “e rompe com o PMDB se isto não for desfeito”, completava o relato.

 

Sugeri que nos dirigíssemos ao Diário do Pará, onde estava o Deputado Jader Barbalho, Presidente Regional do PMDB.

 

Na extremidade direita da enorme mesa de madeira de lei da sala de reuniões do Diário do Pará, estava sentado o Deputado Jader Barbalho e seu assessor Antonio José, que me ouviram o relato do telefonema do Deputado Juvenil. A primeira decisão foi vetar a minha viagem para Altamira naquela tarde.

 

O Deputado Juvenil chegou. Sugeriu procurar o PSDB, explicar a situação, e pedir à agremiação que aceitasse a saída da chapa, o que foi refutado pelo Deputado Jader Barbalho: o PMDB houvera convidado o PSDB para compor a 1ª vice-presidência e não poderia desconvidá-lo em um primeiro soluço vindo do Palácio dos Despachos.

 

Naquele momento se estabelecia o impasse até então mais grave na aliança que se estabelecera entre o PT e o PMDB, no segundo turno da eleição majoritária dois anos antes. Por ironia eventual, a aliança fora selada naquele mesmo prédio do Diário do Pará.

 

Fiz uma ligação ao Chefe de Gabinete do Palácio dos Despachos, Claudio Puty. Argumentei que a aliança com o PSDB à mesa era originalmente tática e não extrapolava os limites do Poder Legislativo.

 

Acrescentei que não havia razões para uma crise na aliança, já esgarçada por motivos outros, pelo fato de o PSDB ter alcançado uma posição diretora que não tinha maiores repercussões na administração da pauta legislativa.

 

O Chefe de Gabinete retrucou que a posição da Governadora estava mantida e que não via razão para adicionar o PSDB na mesa, já que o Deputado Juvenil houvera, com outros partidos, garantido a sua reeleição.

 

O diálogo era previsível e medido. O intento, todavia, houvera sido alcançado: estabelecer uma correspondência qualificada com o Palácio, no meio da crise, pois se sabia que no momento em que ela vertesse às ruas, aqueles cuja expertise é jogar lenha na fogueira iniciariam o serviço.

 

Avaliamos que a ameaça de rompimento não seria considerada, pelo fato de não termos receio algum das respectivas conseqüências: o PMDB, e nem um dos seus próceres, conseguira, até agora, algo substantivo na aliança sempre estressada com o PT, por isto, não nos era sacrifício ir para a oposição.

 

O Deputado Jader Barbalho sugeriu que nos mantivéssemos em vigília, à espera do próximo movimento do Palácio e, dependendo deste, organizaríamos a resistência.

 

Saímos para almoçar na casa do Deputado Juvenil. Antes de chegarmos ao destino recebi um telefonema. Alguém do outro lado da linha pedia-me para ser recebido: disse aos deputados que eles não teriam a honra de ter-me à mesa e rumei a minha residência onde marcara com o interlocutor.

 

Em casa, no meu gabinete de trabalho, a conversa com a figura que me ligara começou algo tensa. Observei que não poderíamos fazer o papel do guerreiro alucinado: aquele que, no calor da liça, golpeia para todos os lados e acaba decepando o próprio pescoço.

 

Amainou-se, ao meio, a conversa. Ao final, estabeleceu-se um pacto: tentar dissolver o impasse para salvaguardar a governabilidade serena que o Palácio houvera tido nos dois anos que se findavam.

 

Todavia, havia certa imponderabilidade na empreitada: como equacionar uma chapa à mesa sem o PSDB, a vontade da governadora, se o PMDB já o houvera convidado, e não tinha intenção de, unilateralmente, fazer-lhe o distrato?

 

Enquanto isto, no governo, iniciou-se o movimento que se intensificaria a partir do sábado: montar uma chapa palaciana para a defenestração do PMDB da Presidência do Poder Legislativo.

 

No final da tarde, chegou uma mensagem da Governadora no celular do Deputado Juvenil: ela não poderia recebê-lo à hora aprazada na ligação da manhã.

 

Lemos a mensagem como a senha para a nossa arregimentação: precisávamos nos preparar para a contenda.

 

Recebi uma ligação do Palácio: o Puty convidava-me para um café, no sábado pela manhã.

 

Participei o encontro ao Deputado Jader Barbalho, que aquiesceu, estabelecendo os limites do diálogo.

 

Terminei o dia com a sensação de que o rompimento com o PT estava na próxima esquina.