23 de out de 2010

A neurologia do voto

Autor: Prof. Dr. Manoel Alves da Silva

 

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Passadas as eleições, os candidatos, os partidos políticos, especialistas e o público em geral se perguntam: o que leva o eleitor a definir seu voto, ou seja, sua decisão em votar num candidato é pautada por qual critério? Existe uma racionalidade que orienta esta decisão, ou ela é substancialmente baseada no seu estado emocional?


No livro a “Cabeça do eleitor” o autor apresenta uma assertiva, segundo a qual governos bem avaliados se reelegem ou elegem seu sucessor, bem como o contrário - também - é verdadeiro, ou seja, governos mal avaliados não se reelegem, nem tão pouco, elegem seus sucessores. Segundo este raciocínio há uma lógica que orienta a decisão do voto por parte do eleitor.


A avaliação positiva ou negativa que o eleitor atribui a um determinado governo está relacionada ao grau de satisfação deste eleitor, sendo assim quanto mais o eleitor vê seus interesses atendidos, maior será sua satisfação com o governo, e em proporções similares será sua avaliação positiva em relação ao governante.


Mas afinal o que leva o eleitor a decidir seu voto? Na hora de votar o eleitor trás, também na sua memória comportamental, a lógica do jeitinho Brasileiro (Roberto Da Matta), ou seja regras essenciais da convivência societária podem ser violadas ou negligenciadas. Afinal, quem está atrás tem o direito de ficar na frente, e quem está na posição de baixa deve aspirar à posição de cima. E nesse momento regras sempre foram feitas para servir a quem está ou na frente ou em posição de superioridade, logo podem e devem ser desconsideradas. “Afinal quem tem fome tem pressa”, mesmo que para atingir seus objetivos adotem posturas “alopradas”.


Ao buscarmos entender a lógica do comportamento individual/coletivo na sociedade, observamos certa tolerância com ações que desrespeitam as regras estabelecidas. Nossas elites políticas (governantes) consideram absolutamente “normal” utilizar o dinheiro público para atender os interesses de grupos particulares: pagar parlamentares para obter maioria congressual, um partido pode orientar seus ascetas a violar sigilo bancário, fiscal, montar dossiês baseados em dados restritos ao uso do Estado, sendo manipulados ao sabor dos interesses de grupos, na guerra santa que este (partido) trava contra o mal (os adversários). Apropriar-se do dinheiro público para corromper a opinião pública, e a própria sociedade.


Esse consentimento sub-reptício que as elites acreditam possuir para se apropriar do patrimônio público, ou de utilizar a esfera pública para fins privados (partidários); ou seja, uma legitimidade para infringir a legalidade, também perpassa às camadas populares. Haveria uma ambiência de micro corrupção sedimentada por práticas micro corruptivas no cotidiano popular. Sendo assim, o agir coletivo desde estratos sociais populares às elites estão impregnados por uma lógica patrimonialista. Emblematicamente simboliza uma profunda tolerância com as ações transgressoras às regras majoritariamente constituídas; ou seja, a legalidade.


Partindo dessa lógica retomamos a assertiva desenvolvida na literatura sociológica (a cabeça do Brasileiro, a cabeça do eleitor) para focarmos as eleições 2010. O resultado das eleições demonstrou à vitória da candidata do PT, mas não no primeiro turno. Por outro lado, os governadores do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Pernambuco, Santa Catarina, Paraná, venceram. Ancorado no argumento apresentado nesse texto, digo que: essas vitórias representam a satisfação dos eleitores com os respectivos governantes. Assim como a governadora do Rio Grande do Sul não se reelegeu, por força da rejeição altíssima. No caso do Estado do Pará, a governadora Ana Julia com rejeição superior a 40% terá grandes dificuldades no segundo turno. Neste caso o eleitor não está vendo seus interesses atendidos, levando-os a rejeitarem as governantes, e, por conseguinte, não reelegê-las.


Nas disputas para os governos estaduais a influência do presidente Lula é residual, não decisiva. A vitória do candidato petista no Rio Grande do Sul não está relacionada à popularidade do presidente lula, até porque se isso fosse verdadeiro, essa mesma popularidade teria revertido às derrotas no Pará, e em São Paulo. As eleições para presidente e de governador possuem dinâmicas diferenciadas, pautadas em escalas de interesses distintos. No estado do Pará a candidata Dilma venceu o candidato do PSDB, contudo a candidata petista ao governo do Pará Ana Julia foi derrotada pelo candidato do PSDB; no Rio Grande do Sul, o PSDB perdeu para o PT; no Acre Marina perdeu para o Serra; e em São Paulo, embora Mercadante tenha recebido apoio ostensivo de Lula, não evitou a derrota de Mercadante/Dilma. Em Brasília, endereço domiciliar do presidente mais popular da historia do Brasil, a Marina ganhou.


Sendo assim a popularidade do presidente Lula é receptiva em ambientes nos quais há densidade de satisfação por parte do eleitor, mas é residual e assume contornos alegóricos em situações de rejeição aos governantes, e insatisfação; quando os interesses dos eleitores não são atendidos por esses governantes. Nesses casos o presidente Lula não consegue transferir seu lastro de popularidade àqueles governantes que possuem avaliação negativa. Mas há sempre a possibilidade do eleitor trocar quatro anos de escola pública por uma cesta básica, na mesma proporção existe o político para oferecer esse escombro, pautado na lógica do “jeitinho brasileiro”.

 

Contudo o eleitor vota de acordo com a sua lógica de interesse.