25 de fev de 2011

PT – entre desilusões e traições

Autor:

Paulo Roberto Vasconcelos Fernandes

Educador

judas

“Você pagou com traição

a quem sempre te deu a mão...”

 

O excerto acima é parte da letra do samba “Vou festejar”, do compositor e cantor Jorge Aragão, que serviu de mote em umas das inúmeras greves dos professores da rede estadual contra a governadora Ana Júlia, do PT, a primeira mulher no Estado a ocupar esse posto.

 

Parece ironia do destino, mas a letra dessa música, considerada um clássico da MPB, foi imortalizada pela voz de outra mulher, a sambista Beth Carvalho, também uma militante de esquerda. Para mostrar sua insatisfação e indignação com o tratamento reservado a educação pelo governo de Ana, a categoria usou cartazes confeccionados pela sua entidade representativa – o Sintepp -, justamente com a letra desse portentoso samba. Mas, o que estava por trás dessa atitude dos trabalhadores em educação no Pará para invocar a palavra “traição”? Esperava a categoria tratamento diferenciado nas suas relações com a governadora, por acreditar que a sua origem política sepultaria de vez o duro tratamento, a base de pão e água, dispensados pelos tucanos ao longo de 12 (e exaustivos) anos de poder no Pará? Ou, não havia nada de concreto pra festejar num estado onde os ecos das mudanças se encontravam cativos na retórica de um governo perenemente palanqueiro e náf! ego para comandar as tão desejadas (e inadiáveis) mudanças num estado de realidade tão caótica.

 

Os professores, entretanto, não deixam de ter lá suas motivações, pois mudanças mesmo na educação, só viram na troca de comando da Secretaria: foram quatro secretários que se altercaram no comando da Seduc em menos de três anos e meio. Fora o escândalo dos kits escolares superfaturados.

 

Talvez as mudanças tão esperadas e prometidas por Ana Júlia que não aconteceram, tenha-os feito acreditar que foram traídos por V. Exa. A crença por melhores dias na educação fora, inclusive, reforçada pelo primeiro titular da Secretaria de Educação, o professor Mário Cardoso, por meio da sua “Carta da Educação”, endereçada à comunidade escolar e que anunciava as boas novas.

 

Traição sempre foi um prato presente no banquete político do Pará, segundo seus próprios personagens. Mas, a intensidade com que esse verbo tem sido pronunciado, especialmente, a partir das eleições de 1982, nos dá a dimensão de como tem sido difícil para os partidos e/ou suas lideranças políticas se manterem fiéis aos acordos que estabelecem entre si para enfrentar uma campanha eleitoral. Conquistado o troféu, vem a tempestade. Quem experimenta ou experimentou o cálice amargo da confiança quebrada, invoca a condição de traído.

 

Essa incômoda palavra “traição” parece ter se constituído num estigma a acompanhar o Partido dos Trabalhadores no Pará, sobretudo, quando se trata das coligações políticas que são vitoriosas. Passado o estouro do champanhe e arrefecido o calor das comemorações com os companheiros dos partidos co-irmãos ou não, as fraturas dessa engenharia política vão se expondo. Quem não se recorda das eleições municipais de 1996, quando Edmilson Rodrigues, então no PT, concorreu, liderando uma ampla coligação de esquerda e saiu vitorioso (posto que fora generosamente favorecido pelo acaso, em conseqüência da contenda traçada por Ramiro e Elcione)? Na hora de compor seu “staff”, o então prefeito “esqueceu” de contemplar os companheiros de lutas e jornadas dos outros partidos, causando um verdadeiro mal-estar entre eles. Acreditava Edmilson que só um gabinete integrado por petistas era capaz de enfrentar os muitos e complexos desafios que Belém lhe imputava. Houve muito chororô até que o cachimbo da fraternidade entre eles fosse fumado.

 

As histórias de traição envolvendo o PT não são poucas, pelo contrário. Elas envolvem, também, o PMDB, de Jader Barbalho. O cacique do PMDB nunca engoliu a tramóia manobrada de dentro do PT nas eleições para o senado em 2002, que favoreceu Ana Júlia e prejudicou Elcione. Ana foi para o Senado em Brasília e Elcione teve que retomar suas atividades políticas por baixo, ou seja, na Câmara Municipal de Belém. O PT chegou, na ocasião, até a lançar nota no Jornal Diário do Pará recomendando suas bases a votarem na candidata peemedebista. Para Jader, essa atitude do PT, além de tardia, foi para inglês ver. Outro episódio dessa amarga história aconteceu nas eleições municipais de Belém, em 2008, quando Priante, - que já havia sacrificado, em prol do PT, uma candidatura certa pra deputado federal para tomar parte na trama que desatrelaria o PSDB do poder estadual -, candidatou-se pelo PMDB, mas não teve a tão esperada “mãozinha” do aliado no segundo e decisivo turno contra o candidato a reeleição, Duciomar Costa. O PT não queria ceder, com seu gesto amigo, o avanço do PMDB no tabuleiro do poder. Isso podia-lhe trazer, num futuro próximo, dificuldades.

 

A mesma atitude teve no episódio da cassação de Duciomar. O alcaide só escapou da guilhotina do judiciário que rondava (e ainda ronda) a sua cabeça, porque houve a mobilização de uma verdadeira força tarefa nos bastidores a seu favor. O PMDB viu nessa correria para preservar o mandato de Duciomar a “mão da providência” do Palácio dos Despachos.

 

Em 2010, novamente, a “traição” deu combustível à campanha para o governo do Estado. E novamente o PT estava no centro dos acontecimentos. Seria a hora do acerto de contas entre o PMDB e o PT? O desfecho do mal fadado governo de Ana Júlia pode ser compreendido, também, por essa quebra de confiança que fora estabelecido com o PMDB. Sem postura altiva para conduzir esse tipo de compromisso celebrado com os seus aliados políticos, entre eles o maior responsável pela sua ascensão ao poder em 2006, o então deputado federal Jader Barbalho, o clima de relacionamento entre PT e PMDB azedou de vez. A terrível e abrupta guinada no “âmbito familiar” dessa relação, não foi devidamente assimilada pelo governo petista. Findo a união, o período de “luto”, nesse caso, em nada serviu para refletir o que fora essa cisão, superá-la, e seguir na busca de novo equilíbrio.

 

O baque da separação, talvez, possa explicar a falta de percepção do PT em vê que a “rainha estava nua” e o sonho da reeleição virar pesadelo, desmoronando feito um castelo de areia, no início do segundo semestre quando a campanha eleitoral começava a esquentar.

 

Afeita a só dar ouvidos ao seu grupo político, a Democracia Socialista (DS), como se estes fossem os únicos eremitas da verdade, Ana Júlia, revelou uma das suas mais substantivas debilidades: a total falta de liderança, sobretudo, para comandar o governo do estado. Quiçá, essa debilidade já se fazia notar até mesmo nas relações com o seu grupo político tamanho o seu aferro a eles. Ana pensava e agia pelas orientações da DS.

 

Conduzidos, então, pela ilusão de que tudo podiam sozinhos, aos poucos foram desmanchando a sua aliança (de conveniência) com o PMDB. Por um capricho da imaginação, elaborado nas mentes dos integrantes do seu grupo, e que pode ser constatado no blog do seu ex-grão-vizir e ex-chefe da casa civil, Cláudio Puty, o blog do Puty, deputado federal eleito e hoje a estrela que mais brilha no governo, ofuscando a estrela da própria governadora Ana Júlia, quando através do artigo “PMDB: ser e não ser, a falsa questão”, levanta a tese segunda a qual, “a ilusão de que, sem a anuência do PMDB, nada se move, nada prospera”. Elaborada a equação para justificar o rompimento da aliança, restava colocá-la a ferro e fogo, com direito a prova dos nove. O preço pago pela ilação equivocada foi alto e será feito em longas prestações, forçando o PT a refletir (e dessa vez acertadamente, espera-se) sobre seus erros.

 

Ora, imaginavam os comandados de Ana que por pura dedução lógica chegariam à reeleição, admitindo para tanto o grande índice de aceitação popular do Presidente Lula, articulado ao uso da máquina oficial e as obras, especialmente, as da Ação Metrópole, que tardaram a chegar, não dando tempo de a população assimilar a sua importância para a cidade. Por outro lado, a ausência de sensibilidade, a falta de experiência e a imaturidade política dos seus auxiliares mais próximos, corroboraram para que se erguesse em torno do Palácio dos Despachos uma redoma de vidro, blindando a governadora de qualquer constrangimento. Já sem olhos ou ouvidos, Ana Júlia, não percebia o clamor das ruas pedindo (e cobrando) as mudanças. Estava completamente desorientada e sem se dar conta do que se passava, realmente, a periferia da sua existência.

 

Com altíssimo índice de rejeição (superior a 50% segundo pesquisas) e hostilizada, através de vaias, em quase todas as solenidades públicas que aparecia, Ana Júlia, seguindo a lógica do seu grupo, topou o jogo e chafurdou de vez nas suas pretensões de estabelecer uma nova marca na política do Pará: a primeira mulher a se reeleger para um segundo mandato consecutivo ao governo do estado.

 

Se a má companhia do PMDB, seguindo a lógica petista, não foi devidamente deglutida e, posteriormente, digerida, como se explica, então, para o eleitor paraense e para a sua militância outras duas (más?) companhias que engrossavam o cordão de correligionários de Ana Júlia? A do alcaide Duciomar Costa (segundo pesquisas, o pior prefeito da história de Belém) e finalmente, a do ex-governador Almir Gabriel, que movido pelo ódio e pela vingança, passou a execrar em praça pública, o ex-amigo e ex-aliado, o economista Simão Jatene. Aliás, o enleado Almir cerrou punhos nessa campanha (e até mesmo antes dela) contra Jatene para denunciar a suposta traição de que fora vítima. Simão Jatene, o antecessor de Ana, apesar de tudo e de todos (ou particularmente Almir) saiu vitorioso das eleições, se tornando outra vez governador do Pará.

 

E assim, na “Terra de Direitos”, traídos e traidores se movem à luz dos seus interesses, pouco se importando com os problemas do Pará e de seus cidadãos. A sensação que recai sobre nós é a de que não há saída. Para onde se olha, a paisagem é triste e enfadonha, sem previsão de dias melhores. O Simão já conhecemos. E a Ana? O que suspeitávamos se confirmou a partir de expectativas desfavoráveis para a população vinda de alguém que se revelou infinitamente incapaz de perceber e combater os intricados problemas que urgem por solução num estado da magnitude do Pará.

 

A palavra “traição” parece, mesmo, mover a senda política no Pará. Parece castigo! Com grandes desafios pela frente, os partidos e os políticos do Estado se mostram preocupadíssimos em não serem traídos (e contrariados) nos seus interesses. O Pará é infinitamente superior a essa pequenez de espírito, que também revela outra sofrível condição: a da falta de lideranças políticas. Esse quadro de abstinência só favorece o surgimento de “falsos brilhantes”, de lapidação grosseira e sem brilho próprio, e que deixam nos seus rastros as marcas das suas fragilidades e carências por aquilo que fazem (ou até mesmo deixam de fazer).

 

Ana Júlia terá muito tempo para (re) pensar sua trajetória política daqui pra frente, fazer o mea culpa (se é que há submissão para isso) dos erros cometidos no comando do Estado. Isso pode até soar como castigo aos vencidos, mas é o trivial e o que costumeiramente se prescreve nesses casos. Pior seria se, ipsis litteris, embalada pela letra da música de Jorge Aragão, a derrotada Ana, pagando o preço caro da traição, se pusesse a chorar como castigo.