25 de nov de 2011

Réplica de Adelina Braglia à Raimunda Monteiro

adelinaA opinião da Raimundinha tem a consistência e a serenidade que, infelizmente, faltou ao discurso divisionista. Fez e fazem falta ao debate os argumentos que ela apropriadamente coloca na mesa pra discussão. E seus argumentos, que eu respeito, balizam este meu comentário a partir da citação de Lia Osório – “... mas as fronteiras são obras dos povos.” – para discordar.

O Pará e seu povo jamais puderam exercer seu direito, desejo e controle sobre a expansão de suas fronteiras, sejam elas concretas ou imaginárias. Nossas fronteiras foram e continuam a nos ser impostas – ou destroçadas – pelos interesses exógenos ao nosso desenvolvimento.

Dentro e fora do olho do furacão, morando em Marabá entre 1977 e 1988, vivi e senti os efeitos da construção de Tucuruí, a implantação do então Programa Grande Carajás, a ocorrência de Serra Pelada, os desdobramentos do asfaltamento da PA-150 ( que nós, ingênuos, acreditávamos que era para nós e não para a facilitação da mobilidade da CVDR!), o afogar do rio Tocantins como caminho natural da integração com as cidades, vilas e povoados ao longo do rio até chegar a Belém, pela hidrelétrica sem possibilidade de transposição. Ainda tive o privilégio de subir o Tocantins, a partir de Marabá e parar em Mocajuba pra comer peixe frito depois de atravessar a corredeira do Capitariquara e depois ver Belém surgindo ao longe, com suas luzes, antes que nossa garganta fluvial fosse cortada.

A abertura da Transamazônica e os efeitos da colonização com “homens sem terra para terra sem homens” abandonados ao longo da sempre inóspita rodovia, esperando por décadas os compromissos que o INCRA jamais cumpriu, a brutal e súbita apropriação de 66% do território paraense pela União a partir da edição do Decreto 1.164/71 não me foram estranhas nem desconhecidas.

Nenhuma dessas decisões envolveu nem tangenciou os interesses do Pará e seu povo e nem levou em conta o que pensava ou pretendia a elite política ou empresarial local. Ela, como o Pará inteiro, era irrelevante nos projetos impostos. Éramos – e ainda somos – um acidente de percurso para vários interesses. As elites – ah! as elites - como sempre, acomodaram suas conveniências políticas e empresarias ao que lhe caia na cabeça. As da capital e as do interior.

A gestão do território, os planos e projetos (?) foram - e continuarão a ser, pois os novos estados nasceriam com dois terços dos seus territórios também sob jurisdição federal - determinados pelos interesses “nacionais”, pela (in)ação do INCRA, pela omissão e conivência do IBAMA, pelas decisões autocráticas do ICMBIO que também nos considera (politicamente?) irresponsáveis e incapazes de gerir nossos recursos naturais, pelos interesses e preocupações que envolvem as áreas militares, pela irresponsabilidade da FUNAI com os povos e terras indígenas, em que estado estiverem.

Sua conclusão sobre o plebiscito – ou a forma como ele chega às pessoas - é preciosa: “Julgar as razões da emancipação exige uma reflexão que uma campanha não irá suprir.”. E, pior do que isto, o fato gerador da campanha – a decisão sobre o recorte territorial que daria corpo aos novos estados – também não foi fruto de reflexão alguma. Aliás, um bom exercício é descobrir do que foi fruto a partição do Pará da forma como se propôs.

Não sou contra a criação dos novos estados, não desrespeito os motivos reais que sustentam o desejo de separação, o sentimento de abandono e as carências concretas. Sou contra o esfacelamento da nossa única possibilidade de continuar insistindo e insistindo num projeto coletivo e sustentável de desenvolvimento que beneficie todos os brasileiros do Pará. Nada me convence que divididos somos fortes, menos ainda a suposição que com mais representantes na Câmara e no Congresso vamos ser ouvidos e respeitados. A dispersão e a desunião da bancada amazônica nas questões que envolvem os interesses regionais é um trailer lamentável.

Admito que a divisão do território do Pará possa vir a responder a justos anseios, mesmo desconhecendo fundamento científico ou experiência que comprove que a variável extensão territorial é decisiva para o desenvolvimento. Tocantins está bem aí, ao nosso lado - em que pese ter se transformado na Meca do emprego público e num celeiro de corrupção - com sua taxa de pobreza extrema três vezes superior à do estado-mãe, Goiás.

Concordo com Raimundinha quando ela diz: “Não existe um só Pará, há pelo menos, 60 anos. Os paraenses se aceitam e se negam nas suas ambições territoriais. Uma nova delimitação administrativa para essas territorialidades poderia consolidar projetos regionais mais adequados às expectativas de seus habitantes.” Mas, certamente não é esta divisão, com absoluta falta de critérios históricos, sociais, econômicos, financeiros ou ambientais e que, se ocorrer, não induz nem sugere melhor qualidade de vida para os brasileiros do Pará inteiro.

Nesta proposta não são visíveis o respeito à histórica resistência do Oeste paraense ou as esperanças dos que querem ser carajaenses. O que grita por dentro dos Decretos 136 e 137 é a arbitrariedade da definição territorial dos estados propostos servindo a interesses obscuros e que, além de não convencer no atendimento às demais regiões, reduz o Pará remanescente a um estado sem futuro, porque sem recursos naturais - seremos fortes assentados numa base econômica “sustentada” na instabilidade e fragilidade do setor serviços.

O que murmura por dentro dos decretos – e ironicamente o murmúrio é mais forte que o grito - são os interesses menores das elites locais, os grandes “interesses” nacionais e os estratosféricos objetivos empresarias. Para essa divisão, eu digo NÃO.

Despeço-me, reafirmando meu respeito à opinião da Raimundinha, por vir colocar nos trilhos parte de uma discussão que se perdeu na origem.

Um abraço, Raimundinha,

Abraço, Deputado.


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