7 de abr de 2012

PF vê elo entre construtora e Cachoeira

Reportagem de FILIPE COUTINHO, FERNANDO MELLO e LEANDRO COLON, publicada na “Folha de S. Paulo”, edição de 07.04.2012.

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A Polícia Federal levantou suspeitas de que a empreiteira Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, fez parte do esquema montado pelo grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, acusado de comandar uma rede de jogo ilegal.

Segundo relatórios de inteligência da PF na Operação Monte Carlo, há indícios "de que a maior parte dos valores que 'entram' nas contas de empresas fantasmas [ligadas ao grupo do empresário] é oriunda da empresa Delta".

Em relatório de novembro, a PF diz ter levantado "indícios de que parte de recursos da empresa Delta transferidos para empresas fantasmas são destinados a pessoas físicas e jurídicas vinculadas direta ou indiretamente à estrutura do jogo de azar".

De acordo com as investigações, foi possível confirmar sociedade "secreta" entre Cachoeira e Claudio Abreu, então diretor regional do Centro Oeste da empreiteira, afastado depois de ser denunciado pelo Ministério Público Federal. Ninguém mais da Delta foi denunciado.

Um depósito bancário rastreado, segundo a PF, seria "possivelmente referente ao retorno dos pagamentos superfaturados que a empresa Delta ganha com os seus contratos com o poder público".

A Delta faturou, desde 2004, R$ 3,6 bilhões do governo federal. A empresa atua em diversas áreas, de construção a energia, passando pela coleta de lixo.

No Distrito Federal, o principal contrato é de coleta de lixo - recebeu R$ 140 milhões nos últimos três anos.

O nome de Claudio Monteiro, chefe de gabinete do governador Agnelo Queiroz (PT), é citado em gravação da PF. Monteiro admite que recebeu aliados de Cachoeira para tratar de contratos da Delta: as reuniões foram com Claudio Abreu e o sargento aposentado Idalberto Matias, o Dadá, que teria se apresentado como presidente da associação de varredores.

NEGÓCIOS PRIVADOS

A PF transcreve dezenas de diálogos em que o nome da Delta aparece. Segundo a investigação, Cachoeira marcou encontros com informantes no prédio da empresa em Goiânia -a Delta recebeu mais de R$ 100 milhões do governo goiano desde 2010.

Em 14 de junho de 2011, Cachoeira telefonou para um policial federal apontado como seu informante para saber sobre possíveis batidas. O empresário pergunta: "E com a Delta, alguma coisa?".

No dia 8, um dos aliados de Cachoeira, Gleyb Ferreira, conversava com o policial federal Deuselino Valadares, também denunciado.

"Não precisa mexer com nada público, mexer só com empresa privada, que é melhor, acabar com esses contratos da empresa pública, como governo e tal, largar esses trem tudo [sic] que só dá problema", disse o policial.

Delta afirma que afastou ex-diretor e faz auditoria

A empreiteira Delta afirma que "está sendo exposta injustamente e tendo comprometida a reputação de seu bom nome corporativo em razão da profundidade e da extensão da relação pessoal de um ex-diretor regional da empresa com uma personagem do meio empresarial que ora é investigada pelo Ministério Público Federal".

A Delta informou que afastou o engenheiro Cláudio Abreu e instalou uma auditoria no escritório regional.

A Folha não conseguiu contato com o advogado de Claudio Abreu. A defesa de Carlinhos Cachoeira afirma que não fará comentários.

A defesa de Idalberto Matias não ligou de volta. A Folha não localizou Gleyb Ferreira e Deuselino Valadares.