5 de jan de 2014

Entrevista com o economista Luiz Gonzaga Belluzzo

Entrevista concedida à jornalista ELEONORA DE LUCENA, publicada na “Folha de S. Paulo”, em 29.12.13

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Folha - Como vai o governo Dilma?

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo - Dilma se deu conta de que os efeitos da crise sobre o Brasil foram maiores do que se podia pensar e duraram mais tempo. Nos metemos numa camisa de 11 varas, num enrosco. O investimento industrial foi afetado pela manutenção da taxa de câmbio valorizada. O que a maioria dos industriais fez? Eles se tornaram importadores. A indústria brasileira ficou nanica. O Brasil vai ter que corrigir a política cambial.

É por isso que o governo está fracassando na economia?

Não acho que esteja fracassando. O crescimento é ruim, comparável ao de FHC, que foi péssimo. Há esse enrosco de câmbio, crescimento e juros. O núcleo do enrosco é o desalinhamento do câmbio.

O Brasil não poderia ter outra posição no câmbio?

Tem custos. Temos uma defasagem grande, que calculo em 30%. Há o custo do impacto na inflação.

Onde está o desenvolvimentismo de Dilma?

A situação é apresentada como fracasso do desenvolvimentismo. Não sei direito de que desenvolvimentismo falam. Desenvolvimentismo agora é o país ficar em condições de competir, fazer acordos. O centro da turbulência está na inadequação das exportações e importações na sustentação do crescimento. Basicamente o crescimento é baixo porque não há dinamismo na indústria.

O crescimento é baixo porque as medidas de Dilma não são desenvolvimentistas?

A Dilma é desenvolvimentista, só que não está conseguindo se livrar de constrangimentos que vêm dos anos 1970. Desenvolvimentismo é uma palavra ambígua. Alguns falam nele pensando nos anos 1950, 1960. Esquece. A configuração da economia mundial é outra. É preciso procurar outros caminhos. Um deles é o próprio agronegócio, que pode ser estimulado a mover-se para outros setores, como a indústria de equipamentos agrícolas.

Dilma criticou o sistema financeiro. Depois houve recuo?

Há um problema de relação de força. Não é saber quem tem razão. É saber quem tem mais poder de fogo, quem tem mais força.

Quem tem mais força: o mercado financeiro ou Presidência da República?

O mercado financeiro. No mundo inteiro. Ou se acha que os europeus fazem isso porque acham engraçado? É porque eles entregaram a rapadura! Não se pode mexer naquilo que é essencial.

O que é essencial?

O emprego, a renda, o bem-estar das pessoas.

Hoje o governo está de mãos atadas em relação ao mercado financeiro?

O governo está perdendo a batalha ideológica e política para o mercado financeiro. O mercado financeiro hoje, no mundo, é um setor cujo funcionamento está voltado para o enriquecimento de suas próprias funções ou dos seus participantes. Deixou de fazer a intermediação banco/empresa/investimento. Por que eles resistem à intervenção no câmbio? A volatividade cambial é péssima para a decisão de investimento. Mas para eles é ótima, porque ficam arbitrando.

Dilma está à direita de Lula?

O mercado acha que ela está à esquerda de Lula. Dizem que o Lula era legal porque conversava. Dizem que ela é a rabugenta, intervencionista e o diabo. A presidente, coitada, herdou esse negócio, e é muito difícil se desvencilhar disso. Ela está seguindo mais ou menos os cânones que são dominantes na economia. Deu uma recuada diante da correlação de forças. Ela está lá meio desconfortável, fazendo o que pragmaticamente deve fazer, não o que ela gostaria. Nem acho que a questão se coloque como mais ou menos intervenção. Com o câmbio muito fora do lugar e a situação internacional, haverá dificuldades de reativar a economia. São duas as oportunidades que ela tem: acelerar as concessões e melhorar o investimento em infraestrutura, com efeito sobre a indústria, e o pré-sal.

Dilma é uma decepção ou está dentro do esperado?

Ela está fazendo o que pode. Sou suspeito porque me considero amigo dela; fui professor dela. O tabelamento da taxa de retorno pegou mal no mercado. Quase disseram que ela era uma réplica da política dos bolivarianos. Tem cabimento essa comparação? Estão botando ela contra a parede. Ela está tentando resistir.

Nesse quadro de atrito, empresários devem apoiar outros candidatos?

Ninguém joga dinheiro fora. É menos atrito e mais reclamação. Eles já se deram conta de que uma coisa é a relação de forças da economia; outra, é a da política. Eles se deram conta de que ela vai ganhar. Vão compor com ela, e ela vai compor com eles, discutir.

Por que os indicadores sociais pararam de melhorar?

Estão melhorando menos, porque a melhora foi muito intensa antes. Dilma está com dificuldade de levar adiante o projeto. Mas eu não creio que ela tenha abandonado esse núcleo central. Ela avançou no Bolsa Família e em outros benefícios. A economia não cresce, não resolvemos o problema da indústria. E, se não o resolvermos, as coisas voltarão para trás.

O governo desacelerou investimentos. Foi um erro?

Eu acho. O investimento público é formador das expectativas do mercado.

É preciso voltar com a ideia de planejamento indicativo do governo. O investimento público, na história do Brasil, definiu o horizonte do investimento privado.

O modelo do tripé deve ser abandonado?

Não. É uma maneira de enquadrar ou organizar as expectativas. Isso não quer dizer usar de uma maneira mecânica.

A forma como alguns tratam o tripé é religiosa. Funciona muito mais como uma fé do que como uma convicção racional.

Os juros devem subir muito?

Não conheço nenhuma experiência em que subir juro funcionou para segurar dinheiro. É ineficaz.

A questão do rebaixamento é importante?

Depois do que essas agências de risco fizeram no pré-crise, é impressionante que as pessoas falem delas com respeito. Deveriam estar na cadeia.