11 de mar de 2014

Entrevista de Helder Barbalho ao Congresso em Foco

Entrevista concedida ao jornalista Edson Sardinha, publicada no "Congresso em Foco" em 10/03/2014.

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Todas as manhãs, durante uma hora, Helder Barbalho apresenta um programa que leva seu nome na rádio de maior audiência do estado, a Rádio Clube do Pará. Há um ano, desde que deixou a prefeitura de Ananindeua – segundo maior colégio eleitoral paraense, com 256 mil eleitores – ele distribui kits-nupciais para os ouvintes e críticas pesadas à gestão tucana do governador Simão Jatene. Para os desavisados, a voz grave pode ser confundida com a de seu pai, o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) – “o maior líder político pessoal do estado”. Apesar de querer seguir os passos do pai, ex-governador, Helder diz que tem história própria.

“Não é correto alguém se comportar a partir de uma referência. Tenho buscado construir minha história, fazer com que o patrimônio eleitoral do PMDB seja preservado e fortalecido com ética e correção”, afirma o pré-candidato a governador, que completará 35 anos em maio.

Nesta entrevista exclusiva, Helder Barbalho se apresenta como um “progressista” que espera aprender com os erros e os acertos do pai. “O senador Jader tem 47 anos de vida pública. Com todo esse tempo, é inevitável conquistar admiradores e adversários. Ele nunca fez política água com açúcar. É um homem que sempre teve posições. Quando você não faz política água com açúcar, paga um preço por isso. Os embates tiveram muita consequência. Espero cultivar os acertos e aprender com os erros que ele possa ter cometido”, afirma, citando o embate com o ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) como o maior equívoco de seu pai.

A artilharia pesada trocada por ACM e Jader, no começo dos anos 2000, resultou na renúncia dos dois ex-presidentes do Senado. “A carreira do senador Jader poderia ter sido maior não fosse esse episódio. Mas ele é paciente, sabe entender as circunstâncias”, observa. Filho do senador com a deputada Elcione Barbalho (PMDB-PA), Helder nega fazer parte de uma oligarquia. “Aqui há uma oligarquia tucana. Há 20 anos o PMDB não governa o Pará nem tem vice”, rebate o ex-prefeito, que ainda preside a Federação das Associações de Municípios do Pará.

Leia a íntegra da entrevista:

Congresso em Foco – O apoio de Jader e do PMDB paraense à reeleição de Dilma depende da aliança com o PT em torno de seu nome para o governo do Pará?

Helder Barbalho – Não depende disso. Nossa candidata é a presidenta Dilma. Vamos apoiá-la qualquer que seja a decisão do PT. Estamos dialogando e vamos respeitar o calendário e as tendências que existem no Partido dos Trabalhadores. Se houver entendimento entre os partidos, o PMDB lançará o candidato a governador e o PT, o candidato ao Senado.

Há espaço para uma recomposição com o PT após o rompimento no governo Ana Júlia?

Estivemos juntos e fomos determinantes para a eleição de Ana Júlia. Quando não havia mais condições de relacionamento, fomos leais. Nas últimas eleições municipais, o PT e o PMDB estiveram juntos em 90% dos palanques das prefeituras. A conectividade dos dois partidos é absolutamente real e concreta, o que facilita o diálogo de cúpula.

Como o senhor se define ideologicamente?

Sou, primeiro, um progressista. Defendo o desenvolvimentismo. Entende que é fundamental haver crescimento com justiça social. Este é o desafio do Brasil e do Pará: equacionar a justiça social e o desenvolvimento do estado.

Alguns de seus adversários o acusam de fazer propaganda fora de época em seu programa de rádio…

Não vou me pautar por aquilo que a oposição acha que devo fazer. No rádio, tenho todos os dias a oportunidade de conversar com os paraenses sem que haja qualquer patrocínio de entidade pública ou envolvimento de órgão público. Estou na rádio para me atualizar sobre as coisas do estado e conversar com a população.

Que características o senhor tem em comum com seu pai?

Não é correto alguém se comportar a partir de uma referência. Tenho buscado construir minha história, fazer com que o patrimônio eleitoral do PMDB seja preservado e fortalecido com ética e correção. O senador Jader tem 47 anos de vida pública. Com todo esse tempo, é inevitável conquistar admiradores e adversários. Ele nunca fez política água com açúcar. É um homem que sempre teve posições. Quando você não faz política água com açúcar, paga um preço por isso. Os embates tiveram muita consequência. Espero cultivar os acertos e aprender com os erros que ele possa ter cometido.

A briga com o ex-senador Antonio Carlos Magalhães foi o principal erro?

Sim. É algo que, se pudesse voltar atrás, ele teria evitado. Teria sido mais inteligente. O senador ACM também disse, em uma de suas últimas entrevistas, que seu maior equívoco político tinha sido o embate com o senador Jader. A carreira do senador Jader poderia ter sido maior não fosse esse episódio. Mas ele é paciente, sabe entender as circunstâncias. Talvez por sua capacidade e pelo conteúdo de literatura que possui, possa fazer uma autocrítica e analisar o papel que deva exercer.

Que papel ele exerce hoje?

O senador Jader é o maior líder político pessoal do estado, com o maior patrimônio eleitoral do aspecto pessoal, mesmo tendo deixado o governo há 20 anos. É um grande articulador, muito competente nos bastidores. Hoje exerce papel mais voltado para o Pará. Quando chamado pelo Planalto, ele busca contribuir com sua experiência e capacidade de analisar o cenário. Mas o atual mandato dele, até por retribuição ao povo do Pará, é diferente. O que acaba soando estranho para vocês. Mas os eleitores votaram nele mesmo quando diziam que o voto não seria validado.

Mas ele tem comparecido pouco ao plenário e não tenha participado de comissões…

No caso das comissões, é que ele acabou chegando ao Senado no meio do primeiro biênio. O quadro já estava ocupado. No próximo biênio, ele deva dialogar com lideranças do partido para poder participar mais ativamente das comissões. Quando chamado, seja pela cúpula do governo ou do partido, ele busca contribuir, seja fazendo analise de cenário, seja externando os temas.

O senhor se sente incomodado quando dizem que faz parte de uma oligarquia política no Pará?

Talvez isso incomode aos tucanos, que estão no governo desde 1995. Aqui há uma oligarquia tucana. Nos últimos 19 anos, nós temos 15 anos de administração do PSDB e quatro do PT. Há 20 anos o PMDB não governa o Pará nem tem vice. Como partido, atuou politicamente, mas daí para imaginar que governamos o Pará seria uma leitura equivocada. Se há alguma oligarquia no estado, não é do PMDB.

Que diferenças o senhor vê entre os governos Lula e Dilma?

São governos distintos. Há uma demanda para fortalecer a interlocução política. Mas isso, para nós, não é fundamental. O que importa é que o governo tenha a eficiência e os resultados que o povo brasileiro e nós, aliados, queremos. Não queremos cargos no governo. Nossa discussão é outra, programática de políticas públicas.

Ele perdeu força em relação ao que já foi um dia, como presidente do Senado?

São momentos políticos distintos. Não é possível fazer comparação. É outro cenário político. Alguns anos atrás ele era líder do PMDB, presidente do Congresso, com peso político nacional e agenda de interface nacional. Por opção pessoal, agora ele volta o mandato para o estado, para trazer benefícios exclusivamente para o Pará. Nos primeiros meses de mandato, cumpriu uma postura de análise e avaliação do ambiente, como ele próprio disse. Fez um jejum. Desejo que ele possa contribuir cada vez mais para o Brasil e o Pará.

Os processos que remetem a denúncias das décadas de 1980 e 1990 constrangem o senador?

Confesso que isso não faz parte da nossa agenda ou das nossas conversas. Qualquer opinião que eu der sobre isso eu estaria fazendo uma suposição por ele. Não tenho procuração para tal. Essa pergunta pode ser feita a ele.