25 de abr de 2016

Entrevista com Pedro Simon

Entrevista concedida ao jornalista Felipe Bächtold, publicada na Folha de S. Paulo em 24.04.2016

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Folha - Como fundador do PMDB, como o sr. vê o partido próximo de ocupar novamente a Presidência?
Pedro Simon – A abertura do processo de impeachment foi uma decisão da Câmara, independente do sr. Eduardo Cunha. O Supremo Tribunal Federal acompanhou todas as decisões, inclusive mandando mudar o rito que o Cunha queria. O que aconteceu, aconteceu.

E a expectativa de governo?
A tese que eu defendi era de o Temer fazer um grande entendimento. Poderia ser até a renúncia dos dois, de Dilma e de Temer. Agora o PT passou a chamar de traidor. Está deixando o Temer em uma situação muito difícil porque o PT, já sentindo que não vai ganhar a votação no Senado, vai fazer de tudo para destruir o governo que vem depois. Esquece da desgraça que pode acontecer com o país com essa hecatombe.

Acho que entidades como a OAB e a CNBB poderiam fazer chamamento ao entendimento. Porque, no Congresso, a gente vê nas críticas que estão sendo feitas, não tem gente de muita tradição, história ou biografia.

E a organização do governo?
Isso que o Temer que está fazendo, de já querer organizar o governo, soa mal. Tinha que ser mais sigiloso, sem estar no jornal. Não é simpático. Ele está meio isolado. Está vendo que do outro lado vai ser uma guerra, vão fazer o que puder para desgastar.

Fico chocado quando vejo o coitado do Temer falando com A, B ou com C, acho que não era por aí. Mas também não vejo outra saída.

Como ele iria lidar com o Congresso Nacional?
Eu fui líder do governo Itamar Franco no Senado. Era uma situação inteiramente diferente porque o Collor tinha zero de credibilidade. O Itamar não quis participar em nenhum momento da questão da cassação. Não deu palpite, não conversou com ninguém.

Ele conseguiu fazer um entendimento, fez a transição com tranquilidade, sem ódio nem rancor. O Itamar não fez acordo com nenhum partido e chegou a uma situação de fazer um baita de um governo. O Temer tem que dar um sentido maior. Tem que ter um pouco de grandeza.

E a votação a partir de agora no Senado? Na Câmara quase não foram discutidas as pedaladas fiscais.
Não tenho nenhuma dúvida de que o Senado vai aceitar. A votação na Câmara foi uma piada, poderiam ter ficado quietos. Dizem que o melhor voto foi o do Maluf, que só disse "sim".

No Senado, vão discutir não só as pedaladas, mas o problema todo que é a Lava Jato. O senador, quando vai votar, não é ministro do Supremo, é político.

O sr. vê a Operação Lava Jato ameaçada em um futuro governo?
Tenho muito medo. Porque, se passar um tempo, seja quem ficar no governo, vai ter pressões. Na Lava Jato, ainda tem muita coisa para aparecer. Tenho medo de que comecem a demitir.

A coisa mais errada que a Dilma fez foi tirar o ministro da Justiça. É uma pessoa que eu respeito. Ele resistiu. O Lula queria a demissão dele, que se metesse na operação Lava Jato, que demitisse o chefe da Polícia Federal. E ele disse não. O perigo existe.

Como o sr. avalia o apoio do seu partido a Cunha?
Ele vai ter que pagar o que deve. Não dá para misturar o futuro do Brasil com a pessoa do Cunha. Daqui para frente, até a definição do que nós estamos vivendo, ele não vai ter mais papel nenhum.

Como ficará a imagem de Lula depois de toda a crise?
Perante a história, ele vai pagar um preço muito caro. É uma figura que vai ser cobrada. Vão ser duas fases distintas: o Lula operário, líder sindical, que fez um baita de um partido, que perdeu as eleições, se elegeu. No palácio, desandou, se aproximou de empreiteiros, viajava com um, outro pagava palestras…

Repare que, no início do processo de impeachment, o PSD, o PTB, o PP estavam com o governo. Aí o Lula entrou na coordenação do governo e esses partidos saíram. Quando ele entrou, deu tudo errado.

E quanto a Dilma, faltou experiência para lidar com as forças políticas do Congresso?
Dilma foi secretária na Prefeitura de Porto Alegre, foi secretária no governo do Estado. Foi para o PT e chamou a atenção do Lula. Ela era meio ríspida e o Lula confundiu isso com capacidade.

Como ficará a mobilização de rua a partir de agora?
São dois tipos de manifestantes: jovens que foram para a rua espontaneamente, que convidavam amigos e isso deu certo. O outro grupo é o do PT, que é gente paga.

Agora não dá para ter ideia o que o primeiro grupo pensa sobre o futuro. Acho que não tem muita gente favorável a um governo do Temer. Tem um grupo, que é menor, mas que a gente sabe que é de direita. É delicado, mas ir para rua e debater é melhor do que deixar só entre políticos.